Odeio aquelas meninas que falam com o olhar “GORDA”. Vontade de mandar tudo para puta que pariu.
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Isso mesmo, eu era uma garota, e, além disso, machista.
Minha mãe, como quase todas as mulheres, era feminista, participava de passeatas, entre outros protestos na época. Meu pai era machista, o modo de andar dele fazia com que minha mãe abaixasse sua cabeça sempre, principalmente quando ela voltava de protestos e ele já estava em casa, ela sofria, e eu com apenas 10 anos tive que presenciar - quase - todas as cenas de dor na minha família. Minha mãe já ficou com o olho roxo, com vergonha de sair de casa, e suas (poucas, uma ou duas) amigas vissem o que seu marido fazia com ela. Geralmente, nessas cenas de dor, meu pai fazia com que eu ficasse de pé, olhando a cena, sempre com lágrimas no olhar, e falava: “Não seja tola que nem sua mãe, lugar de mulher é em casa e não na rua, não é trabalhando, quem manda na casa sou eu, vocês nasceram apenas para procriar, então eu exijo mais respeito da parte das duas”.
Eu era muito nova para saber o que significava cada letra dessas palavras, quase nunca saia de casa, apenas algumas vezes para ir comprar algo para minha mãe cozinhar na hora do almoço. Eu quase não falava, não trocava nenhuma palavra, pelo menos com meu pai e com minha mãe não. O único que tinha paciência para me ouvir, era o urso que meu pai me comprou no meu aniversário voltando do trabalho bem de noitinha, não devia ter custado tanto, e foi o único presente que ele tinha me dado desde que nasci. Falava com ele de madrugada porque acordava chorando, nunca sabia o motivo, eu apenas era uma garota, triste.
Meu pai não me deixava ir para a escola, falava que era para ficar arrumando a casa, ajudando minha mãe no almoço, jantar, etc. Minha mãe saia quando ele ia trabalhar e mandava-me ficar quieta, pois se eu contasse para ele, eu já saberia o que iria acontecer. Ela sabia que não iria contar, eu não ousava abrir a boca dirigida a nenhum dos dois, talvez apenas uma vez por mês para cada um. Quando ela chegava, sempre vinha com uma boa quantidade de dinheiro em sua bolsa preta pequena, ela escondia, e falava que aquele dinheiro iria ajudar no nosso futuro, que os dias tristes acabariam.
Com 11 anos de idade, no começo do ano, quando meu pai chegou do trabalho e ficou tomando uma bebida no sofá, em frente da televisão, eu olhei para ele, senti um frio na barriga, mas eu precisava tirar minha dúvida: “Pai”. Ele me olhou um pouco confuso, porque quase nunca falava com ele. “Por que você não concordar com a opinião da mamãe de todos terem os mesmos direitos?”. Depois que acabei a pergunta, percebi que não deveria ter falado nada. Ele jogou a bebida em meu rosto se levantou, e deu um tapa em minha cara, me chamou de “menina ignorante”, e me mandou para o meu quarto. Ele nunca tinha me batido antes. Minha mãe apenas ficou olhando com um ar de tristeza, depois de alguns minutos foi para o meu quarto com uma toalha, falando que era melhor eu tomar banho.
Quando sai do banho, me olhei no espelho, perto da minha testa, estava começando a ficar um pouco roxo, estava latejando, minha cabeça doía. Entrei no meu quarto e olhei para minha cama, mamãe estava sentada chorando, sentei do lado dela, e a abracei. Ela olhou para minha testa e falou que a gente ia ficar bem.
Passei um grande tempo enfiada em meu quarto depois desse evento horrível.
Quando sai, foi porque meu pai estava gritando com minha mãe. Ele tinha descoberto que ela saia enquanto ele trabalhava, ele bateu nela. Mais do que nas outras vezes. E dessa vez, tentei impedi-lo, tão estulto sou, pensando que com 11 anos conseguiria parar um homem tão grande que nem meu pai. Sai com hematomas dessa briga também. Ele a chamava de prostituta, eu não sabia o significado. Ele ficava perguntando onde estava o dinheiro, e ela falava que não tinha dinheiro nenhum. Eu queria que aquilo acabasse, ergui o piso de madeira e tirei a caixa que ela guardava o dinheiro e entreguei para ele. Ela começou a chorar, não sabia se eu tinha feito algo bom ou ruim. Ele chamou aquele dinheiro de “dinheiro sujo” que tinha vindo “das mãos de uma prostituta, de uma vadia”, não sei ao certo o que ele fez com o dinheiro, tive a impressão de que ele o queimou, mas não tenho certeza.
Passei muito tempo sem olhar para meu pai e minha mãe, me sentia envergonhada, por tudo. Passei muito tempo sozinha para entender todas as palavras que meu pai e minha mãe diziam. Meu pai começou a trancar a casa inteira, desde as janelas, até as portas. E assim o tempo corria.
Com quase 13 anos, meu pai veio a falecer, ela chorou, eu não. Ela chorou de alegria. Eu apenas sorria.
Minha vida mudou, minha mãe começou a trabalhar, não era um grande emprego, mas dava para por comida em nossa casa. Eu não sabia ler, nem escrever, e comecei a aprender sozinha, mas aprendi apenas as coisas básicas. Eu era uma garota, uma garota solta nesse mundo. Sem saber o que fazer nesse lugar enorme que é o mundo.
Minha mãe faleceu. Eu era uma mulher solta, sem saber o que fazer para conseguir dinheiro, lembrei-me do que minha mãe fazia quando eu era menor, quando meu pai ainda estava vivo.
Eu era uma mulher, lendo pessimamente, e escrevendo pior do que lia. Eu era uma mulher que na verdade não sabia o que fazer da vida. Eu era considerada a vadia da rua. Mas se ser vadia é ser livre, se ser vadia é passar pelo que passei, somos todas vadias então.
Eu era uma vadia machista, pois o lugar de mulher que não sabe fazer nada é na boca do fogão. Sou machista a meu respeito, porque meu pai me criou assim.
Eu era uma prostituta, que não sabia fazer nada, machista e com a cabeça feminista.
Minha mãe, como quase todas as mulheres, era feminista, participava de passeatas, entre outros protestos na época. Meu pai era machista, o modo de andar dele fazia com que minha mãe abaixasse sua cabeça sempre, principalmente quando ela voltava de protestos e ele já estava em casa, ela sofria, e eu com apenas 10 anos tive que presenciar - quase - todas as cenas de dor na minha família. Minha mãe já ficou com o olho roxo, com vergonha de sair de casa, e suas (poucas, uma ou duas) amigas vissem o que seu marido fazia com ela. Geralmente, nessas cenas de dor, meu pai fazia com que eu ficasse de pé, olhando a cena, sempre com lágrimas no olhar, e falava: “Não seja tola que nem sua mãe, lugar de mulher é em casa e não na rua, não é trabalhando, quem manda na casa sou eu, vocês nasceram apenas para procriar, então eu exijo mais respeito da parte das duas”.
Eu era muito nova para saber o que significava cada letra dessas palavras, quase nunca saia de casa, apenas algumas vezes para ir comprar algo para minha mãe cozinhar na hora do almoço. Eu quase não falava, não trocava nenhuma palavra, pelo menos com meu pai e com minha mãe não. O único que tinha paciência para me ouvir, era o urso que meu pai me comprou no meu aniversário voltando do trabalho bem de noitinha, não devia ter custado tanto, e foi o único presente que ele tinha me dado desde que nasci. Falava com ele de madrugada porque acordava chorando, nunca sabia o motivo, eu apenas era uma garota, triste.
Meu pai não me deixava ir para a escola, falava que era para ficar arrumando a casa, ajudando minha mãe no almoço, jantar, etc. Minha mãe saia quando ele ia trabalhar e mandava-me ficar quieta, pois se eu contasse para ele, eu já saberia o que iria acontecer. Ela sabia que não iria contar, eu não ousava abrir a boca dirigida a nenhum dos dois, talvez apenas uma vez por mês para cada um. Quando ela chegava, sempre vinha com uma boa quantidade de dinheiro em sua bolsa preta pequena, ela escondia, e falava que aquele dinheiro iria ajudar no nosso futuro, que os dias tristes acabariam.
Com 11 anos de idade, no começo do ano, quando meu pai chegou do trabalho e ficou tomando uma bebida no sofá, em frente da televisão, eu olhei para ele, senti um frio na barriga, mas eu precisava tirar minha dúvida: “Pai”. Ele me olhou um pouco confuso, porque quase nunca falava com ele. “Por que você não concordar com a opinião da mamãe de todos terem os mesmos direitos?”. Depois que acabei a pergunta, percebi que não deveria ter falado nada. Ele jogou a bebida em meu rosto se levantou, e deu um tapa em minha cara, me chamou de “menina ignorante”, e me mandou para o meu quarto. Ele nunca tinha me batido antes. Minha mãe apenas ficou olhando com um ar de tristeza, depois de alguns minutos foi para o meu quarto com uma toalha, falando que era melhor eu tomar banho.
Quando sai do banho, me olhei no espelho, perto da minha testa, estava começando a ficar um pouco roxo, estava latejando, minha cabeça doía. Entrei no meu quarto e olhei para minha cama, mamãe estava sentada chorando, sentei do lado dela, e a abracei. Ela olhou para minha testa e falou que a gente ia ficar bem.
Passei um grande tempo enfiada em meu quarto depois desse evento horrível.
Quando sai, foi porque meu pai estava gritando com minha mãe. Ele tinha descoberto que ela saia enquanto ele trabalhava, ele bateu nela. Mais do que nas outras vezes. E dessa vez, tentei impedi-lo, tão estulto sou, pensando que com 11 anos conseguiria parar um homem tão grande que nem meu pai. Sai com hematomas dessa briga também. Ele a chamava de prostituta, eu não sabia o significado. Ele ficava perguntando onde estava o dinheiro, e ela falava que não tinha dinheiro nenhum. Eu queria que aquilo acabasse, ergui o piso de madeira e tirei a caixa que ela guardava o dinheiro e entreguei para ele. Ela começou a chorar, não sabia se eu tinha feito algo bom ou ruim. Ele chamou aquele dinheiro de “dinheiro sujo” que tinha vindo “das mãos de uma prostituta, de uma vadia”, não sei ao certo o que ele fez com o dinheiro, tive a impressão de que ele o queimou, mas não tenho certeza.
Passei muito tempo sem olhar para meu pai e minha mãe, me sentia envergonhada, por tudo. Passei muito tempo sozinha para entender todas as palavras que meu pai e minha mãe diziam. Meu pai começou a trancar a casa inteira, desde as janelas, até as portas. E assim o tempo corria.
Com quase 13 anos, meu pai veio a falecer, ela chorou, eu não. Ela chorou de alegria. Eu apenas sorria.
Minha vida mudou, minha mãe começou a trabalhar, não era um grande emprego, mas dava para por comida em nossa casa. Eu não sabia ler, nem escrever, e comecei a aprender sozinha, mas aprendi apenas as coisas básicas. Eu era uma garota, uma garota solta nesse mundo. Sem saber o que fazer nesse lugar enorme que é o mundo.
Minha mãe faleceu. Eu era uma mulher solta, sem saber o que fazer para conseguir dinheiro, lembrei-me do que minha mãe fazia quando eu era menor, quando meu pai ainda estava vivo.
Eu era uma mulher, lendo pessimamente, e escrevendo pior do que lia. Eu era uma mulher que na verdade não sabia o que fazer da vida. Eu era considerada a vadia da rua. Mas se ser vadia é ser livre, se ser vadia é passar pelo que passei, somos todas vadias então.
Eu era uma vadia machista, pois o lugar de mulher que não sabe fazer nada é na boca do fogão. Sou machista a meu respeito, porque meu pai me criou assim.
Eu era uma prostituta, que não sabia fazer nada, machista e com a cabeça feminista.